um pequeno diário de quarentena #1


Sonhei que descia a rua Alan Kardec, esquina com a Bezerra de Menezes, numa tarde de sábado enquanto o sol queimava meu rosto e me impedia de ver por onde andava. De repente tropecei numa pedra, desastrado como sempre, e caí com as mãos ao chão, semi-impotente e envergonhado. Toda a minha vida foi um tropeço. Mesmo as coisas mais belas eu encontrei por acaso. De um choro suicida uma amizade, de um lamento em .doc os melhores amigos da internet. Estou tropeçando até hoje, enfim. Só perdi a vergonha.

Fazem 7 anos que deixei o apartamento 102 na rua Bezerra de Menezes, fazem 4 anos que deixei meu último amor e fazem 15 minutos que me queimei com a xícara de café. Cada tópico uma lembrança, cada lembrança um lamento e de cada lamento a certeza de quem sou e como cheguei até aqui. Meu nada conveniente.

Essa semana uma bela moça sorriu e disse que me achava interessante. Essa semana minha cachorra entrou debaixo das cobertas e só saiu pela manhã. Sinto saudades da minha mãe e da minha irmã, mas espero que estejam em casa e fiquem bem. A vida é isso, possibilidades e ausência delas. E é justamente do que não podemos ter controle que a surpresa vem. Às vezes a surpresa é dor, as vezes é riso. O fato é que até a morte nenhum ser humano vivo deixa de surpreender e ser surpreendido. Mesmo aqueles em que a vida não poupou a dor. 

Às vezes o que devemos fazer é ficar em casa, às vezes devemos sair e buscar sorrisos e é isso que ainda espero fazer, mas sem que precise perder nada.

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