trigésimo quinto dia da toalha
A inocência não morre com um estrondo; ela se dissolve na assinatura de termos de consentimento e no preenchimento de guias de recolhimento de impostos. Lembro-me de quando o fim do mundo era uma abstração romântica, um meteoro hipotético que justificaria minha fobia social adolescente e aquela melancolia de almanaque comum aos filmes americanos da época. Queríamos o apocalipse porque ele parecia esteticamente mais limpo do que a alternativa, a persistência monótona dos dias, a contabilidade sádica do Mercado Livre cobrando juros retroativos de uma década atrás, e a percepção tardia de que os monstros que temíamos na infância não tinham garras, mas sim CNPJ e assessoria jurídica. A vida adulta é esse balanço patrimonial onde o passivo é existencial e o ativo é o cansaço. Na cadeira de plástico da varanda, olho para uma toalha estendida no varal, na verdade é um pano cinzento, desfiado nas bordas, que já teve um verde quase vibrante. Hoje é o Dia da Toalha. Há quinze anos, essa ...