um contraditório
O café esfria na xícara enquanto essa carcaça de carne insiste em bombear sangue, um automatismo biológico operando no vácuo de uma existência que oscila entre a inércia do poço e o espasmo do esforço. Somos a contradição encarnada, o velho Santiago de Hemingway, com as mãos dilaceradas pela linha de um peixe que já antevemos devorado pelos tubarões do cotidiano, teimando em remar mar adentro contra a indiferença do oceano, colados a um heroísmo patético de quem se recusa a afundar. Mas esse esforço hercúleo não é senão a antessala do esvaziamento; é a travessia de Siddhartha na margem do rio de Hesse, o asceta que se despiu de todas as posses e vaidades para, ao cabo de todas as metamorfoses e sofrimentos, contemplar a correnteza e compreender que o “eu” é uma ilusão fluida, um reflexo projetado sobre o nada absoluto. Assim, mascarado de bicho social, sigo puxando o remo com o peso do mar nas costas, sabendo que a única sabedoria final é escutar a risada silenciosa do rio, que e...
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