esses tempos
Eu nasci em 1990, não peguei o governo militar e nem o processo de redemocratização, era jovem demais para me lembrar da inflação e pobre demais para saber se dava para tirar férias na disney quando criaram o plano real. Cresci lidando com direitos inimagináveis a meus pais e avós, com um crescente acesso a informação jamais visto na história humana, e cheio de expectativas muito distintas daquelas que me eram narradas pelos adultos, que falavam de seu tempo. Nasci e cresci numa cidade de economia rural, muito pobre, no coração do Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres e remotas do país, numa casa com dois cômodos em cimento e o restante barracões de pau-a-pique. Demorei muitos anos até ver uma tv em cores na minha casa, um computador mais ainda. Meu grande sonho de infância era um diskman, e quando me deram um walkman eu me senti a pessoa mais feliz do mundo. Boa parte das coisas que eu sabia vieram da biblioteca, dos livros, pois mesmo a escola me parecia pouca, desinteressante, cheia de obrigações e nenhum questionamento. Tomei o mesmo rumo quanto a igreja e aos amigos, que me faziam de bobo devido a minha classe social. Lembro a quantidade de meses que minha mãe gastou pagando um computador barato e um mp3 player que me deu em aniversários. Ela é a pessoa mais forte que conheci. E a bem da verdade, fora ela, é a internet quem me foi um mundo de oportunidades, melhores amigos, aceitação e crescimento. Foram pessoas atrás de uma tela que me fizeram ter a coragem de me preparar para o mundo. Esse mundo que, diagnósticos à parte, continua um cão. Na internet eu descobri que podia fazer faculdade, que podia aprender além das pessoas na faculdade, que aprender poderia ser um pleno prazer. E hoje é justamente isso que me angustia, o mundo inteiro foi parar atrás das telas e não tenho mais para onde fugir. O conhecimento deu lugar a boatos e gritos de todos os tipos, a busca por música, arte ou mesmo pornografia deu lugar a busca de coisas para podermos odiar. E a inteligência, a tão mal falada inteligência perdeu a corrida para a burrice, uma burrice colossal a qual eu não admito. Mas o que posso fazer? O futuro, esse quarto escuro, ele é igual ao que sempre foi. Uma expectativa vazia, e só. E ninguém atrás da tela é capaz de nos proteger de nós mesmos.

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