houve um tempo em que nós éramos feito unha e carne
Considero o pessimismo um contraponto necessário a uma vida propositada. O sentido quando não confrontado é ilusão, e é na ilusão que a existência desaba. O iludido não tem nada firme sob os pés e nem consegue ver formas nas nuvens que passam sobre sua cabeça. O iludido sente medo, mas um medo tão abstrato que incapaz de ter forma se torna essência. É capaz que seja um não-vivo, até.
Na minha cabeça quase nunca estou em Berilo, passeio por Roma, Beijing, Suriname e o Pleroma. Talvez daí venha toda essa minha desatenção e desleixo com as coisas do mundo. No fundo continuo desejando não ter forma material, querendo ser uma nuvem. Sinto um contentamento gigantesco só de imaginar minha consciência flutuando por aí sem estar presa a nada.
Muitas pessoas foram embora de mim e as vezes penso se deixei alguma marca nos seus caminhos, seja marca de ódio ou amor. Penso tanto em insetos, navios e pinguins que não percebo a diferença que fiz na vida de algumas pessoas e me esqueço de falar da diferença que meus amigos fazem na minha. São o meu castelo desse reino pessoal de bobagens em que sou rei.
Ao mesmo tempo em que quero ser consciência a flutuar, me alegra saber que piso em terra firme, sólida, de afetos concretos que construí e me construíram de volta. Hoje eu ouvi que pareço feliz quando vejo pombos, mas nunca reparei.
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