um contraditório

 


O café esfria na xícara enquanto essa carcaça de carne insiste em bombear sangue, um automatismo biológico operando no vácuo de uma existência que oscila entre a inércia do poço e o espasmo do esforço. Somos a contradição encarnada, o velho Santiago de Hemingway, com as mãos dilaceradas pela linha de um peixe que já antevemos devorado pelos tubarões do cotidiano, teimando em remar mar adentro contra a indiferença do oceano, colados a um heroísmo patético de quem se recusa a afundar. Mas esse esforço hercúleo não é senão a antessala do esvaziamento; é a travessia de Siddhartha na margem do rio de Hesse, o asceta que se despiu de todas as posses e vaidades para, ao cabo de todas as metamorfoses e sofrimentos, contemplar a correnteza e compreender que o “eu” é uma ilusão fluida, um reflexo projetado sobre o nada absoluto. Assim, mascarado de bicho social, sigo puxando o remo com o peso do mar nas costas, sabendo que a única sabedoria final é escutar a risada silenciosa do rio, que engole tanto os santos quanto os ratos tristes que fomos condenados a ser.

Mas espera aí, quantos dramas e clichês da minha própria escrita ainda serei capaz de suportar? É tanto melodrama deprimido que nem me reconheço antes da pílula antidepressiva. Eu remo em direção a uma praia onde bons amigos me esperam para rir de piadas nonsense com a banda Roupa Nova. Eu atravesso sorridente apesar das agruras pois esse é o propósito de quem vive sob a égide da própria vontade. Do que tenho que reclamar se não de meia dúzia de dívidas e do excesso de ócio em uma mente adoecida pela rotina? Um indivíduo deve ser maior que seus lamentos e isso eu já me tornei. Tenho café e eletricidade, três banhos ao dia e também três refeições, é mais do que qualquer velho soldado de trincheira almejou ter. Aprendi com Camus que o sentido é qualquer coisa que nos faça dançar diante do absurdo e tomar as pílulas de mercúrio para socar o Demiurgo no rosto e desejar um bom dia apesar de tudo. Viver arde em um corpo que goza. Não posso apenas choramingar feito um Werther de pele marrom. Se afundar, que seja rindo e balançando ao som da boa música.

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