trigésimo quinto dia da toalha

 


A inocência não morre com um estrondo; ela se dissolve na assinatura de termos de consentimento e no preenchimento de guias de recolhimento de impostos. Lembro-me de quando o fim do mundo era uma abstração romântica, um meteoro hipotético que justificaria minha fobia social adolescente e aquela melancolia de almanaque comum aos filmes americanos da época. Queríamos o apocalipse porque ele parecia esteticamente mais limpo do que a alternativa, a persistência monótona dos dias, a contabilidade sádica do Mercado Livre cobrando juros retroativos de uma década atrás, e a percepção tardia de que os monstros que temíamos na infância não tinham garras, mas sim CNPJ e assessoria jurídica. A vida adulta é esse balanço patrimonial onde o passivo é existencial e o ativo é o cansaço.

Na cadeira de plástico da varanda, olho para uma toalha estendida no varal, na verdade é um pano cinzento, desfiado nas bordas, que já teve um verde quase vibrante. Hoje é o Dia da Toalha. Há quinze anos, essa efeméride me faria sorrir com a cumplicidade altiva de quem decifrou o universo através do absurdo anglo-saxão; hoje, ela me lembra apenas que o guia definitivo para o mochileiro das galáxias esqueceu de incluir o capítulo sobre como renegociar o cheque especial ou como lidar com o sumiço misterioso da cartilagem dos joelhos. O erro de Douglas Adams foi sugerir que a resposta para a vida, o universo e tudo mais é o número 42. A resposta varia conforme o indexador da inflação.

Ainda assim, há uma teimosia biológica e patética que insiste em pulsar entre uma crise de ansiedade e um boleto vencido. Olho para os livros empilhados na estante, para as notas de rodapé que ainda pretendo escrever, para o cinismo dos dias que insiste em não me vencer por completo. É uma ultrajante a de não morrer. Não por um otimismo ingênuo ou por alguma esperança metafísica de redenção e sim por uma curiosidade simplória de continuar aprendendo sobre as dúvidas de sempre. Seguro a toalha velha contra o peito, ela não vai me proteger de um ataque de poesia, nem vai pagar as dívidas (materiais ou de karma?) que acumulei com o tempo, mas ainda serve para secar o suor de quem, por pura birra, decidiu continuar vivo por mais um dia. Nenhum pânico, afinal. Apenas a persistência do erro ou a obrigação de alimentar as cachorras.

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