sobre essas ruas em que predominam as desavenças e gerações perdidas


Em outros tempos Berilo costumava ter suas ruas infestadas de jovens. Éramos todos urgentes, carentes de transgressão, uns bobos deslumbrados e estrambólicos, jovem da roça. Fazíamos de pequenos delitos como roubar frutas, experiências com drogas leves e conversas aleatórias sobre tudo uma forma de confrontar o mundo, a autoridade ou melhor, a ilusão dela. Queríamos romper com aquele mundo repressor e enfadonho das cidadezinhas do norte de minas gerais, estávamos em guerra contra os fofoqueiros e qualquer um que atentasse contra essa ilusão de liberdade. Não vou negar, não eram bons tempos, muito pelo contrário, mas havia uma inquietação na juventude, algo que até me dava esperanças, e apesar delas não terem se confirmado na maioria de nós enquanto adultos, é bom recordar que a passividade nem sempre foi a regra por essas bandas do fim do mundo. Tudo bem, talvez eu esteja sendo tomado por um tipo de nostalgia-de-velho-precoce, mas hoje essas mesmas ruas carecem de jovens, elas estão cheias de velhos autoritários e avessos a crítica. E os mais novos, saindo da pré-adolescência, o máximo de transgressão que passa por suas cabeças é adotarem uma versão do cristianismo cada vez mais fundamentalista e repressora. Como se ódio fosse contra cultura. Ok, eu sei que os tempos são outros e que minha geração não diferiu tanto da atual, que ainda sou jovem e vide o que nos tornamos depois de crescidos. Porém, escolher se anular tão jovem é algo que nunca vou ver com otimismo. É um tipo de resignação que só deveria ser frequente na vida adulta, e mesma nela, penso que há de ser criticada. Aliás, tudo há de ser criticado. Berilo, as ruas, verdades, os jovens, anedotas, você, eu, as ideias e deus. O mérito dos jardins férteis é sempre da jardinagem. E as vezes jardinar concreto.

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