o homem torto e o seu sonho ridículo sobre dormir

Padre Anchieta escrevendo seu Poema à Virgem by Benedito Calixto (1853-1927)

Dependesse do meu corpo, ficaria na cama, adormecido, me fundiria aos lençóis e ao colchão. Mas fosse assim, o que estaria fazendo de mim? Desperdiçaria essa imensa força que me justifica, que mantém vivo cada segundo de minha respiração, esse emaranhado de consciência, sentimentos, sonhos, personas e átomos que convencionamos chamar de "eu". O que eu faria fundido ao colchão, assistindo um teto apodrecer ao tempo e desabar sobre minha cabeça, incapaz de nada além de contemplar o próprio fim? Pobre de mim ou do teto? Eis a verdade, não há deus nas lacunas, mas são as lacunas quem são o deus. Essa antiga e ansiosa falta imensa que nos consome, que tanto nos atormenta, a que convencionamos chamar "felicidade", o norte sem sul. Mas a escolha, a escolha ainda é minha e não há vida alguma sem o "eu". Agora a morte, ela independe disso, de nós, do alegre, do tempo. Ela vai acontecer soberana, ainda que eu não queira, talvez por isso a escolha ocorra antes que ela possa acontecer. Sem saber quando nem onde. Eis o nosso privilégio. Existe o "eu" e também sua circunstância. Há de resistir, nem que seja para descobrir "posso".

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