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Não era como se pudesse ser diferente, havia toda uma questão geracional, socioeconômica e até de personalidade. Eu nasci em uma família onde o fracasso foi condicionado pela história, não por consequência de escolhas mal feitas. Minha bisavó, minha avó, minha mãe, meus tios, nunca faltou trabalho e suor e ainda assim o pouco que construíam era roubado pelas circunstâncias. Não existe azar, mas existe ambiente desfavorável e foi nele em que ouvi pela primeira vez que preto não deveria estudar. Foi triste, mas não me vi como vítima ainda que fosse, então usei isso contra eles e terminei uma faculdade - ainda que aos trancos e barrancos e muito longe de um grande centro, ainda assim cheguei mais longe que a maioria dos meus algozes. Eu sei que não sou idiota, e sei que aquelas pessoas não sabem dizer para onde vai o dinheiro dos seus impostos, como se dá o processo evolutivo ou como uma ditadura não pode ser um espaço democrático, e vez ou outra eu gosto de rir deles para me sentir bem. Mas tem dias em que eu deito a cabeça no travesseiro e gostaria de ser outra coisa. De não ter essas dores todas, estigmas, traumas, de não ter enfrentado dezoito anos de depressão e os abusos que me deixam na lona até hoje. Tem dias em que eu não gostaria de ser forte, de ter que me provar capaz a todo infeliz que passa pela minha vida. Nesses dias eu só gostaria de um abraço, uma companhia silenciosa, uma despedida com a promessa vazia de que tudo vai ficar bem. Mas eu sei que não vai ficar bem, pois desde o dia primeiro de janeiro a minha luta é por me convencer de que o pneu do ônibus sobre a minha cabeça é uma ideia ruim. E isso porque eu cansei de me sentir a ideia ruim, mas no momento sequer consigo sentir outra coisa. Eu não sinto raiva, eu não sinto amor, eu não sinto culpa, eu só sinto que essa coisa abstrata chamada "eu" para quem dediquei todos os anos da minha vida não vale nada. E que eu poderia sumir. E ainda que eu saiba que nada é simples assim, tudo que eu gostaria é sentir outra coisa sem que ninguém mais pensasse que pode sentir por mim. Minha dor é real.

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