três dezenas e meia dúzia

 


Hoje me lembrei de um garotinho muito pobre e silencioso que dizia que morreria aos 21 mas agora já habita esse planeta há quase quatro décadas. Chega a ser curioso como o caminho da vida é meramente acidental, não importa quanto preparo ou quanto desejo, as coisas só acontecem como podem acontecer e isso muitas vezes é acidental. Não existe Deus no processo, mas deuses sobram aos montes. Felicidade, esperança, amor, sucesso, desejo, tudo são promessas que nos são dadas numa educação teologicamente cultural. Mas a vida acontece apesar dela.
Ainda gosto de sentar na calçada e tomar meu café num copo americano ou caneca remendada, mas  não gosto mais de Charlie Brown Jr e Legião Urbana, hoje eu prefiro Watain ou Teitanblood, Miles Davis ou Elton John. De certa forma a gente muda mas continua o mesmo, só troca os terrenos por onde pode ou quer caminhar. No fim das contas já não tenho mais tantas lamentações como também não espero algo muito melhor da vida agora ou no futuro. Consigo sorrir com as poucas coisas que tenho e sei bem discernir o que é sonho do que é possibilidade - Saber que ainda posso sentar na calçada e tomar o meu café me importa mais. E diante de tudo isso, são trinta e seis anos muito duros até aqui, mas feliz aniversário para mim que lidei com muitas desgraças e mesmo assim não me tornei um canalha abusivo ou um idiota irresponsável. Nos tempos de hoje isso é algo a se valorizar. 
Não quero mais me matar e pretendo ficar por aqui enquanto houver bolo e pão de queijo. Ainda penso que viver não seja nada especial e que envelhecer não traz sabedoria a quem é burro, mas para todos nós vem as dores nas costas e o desejo de terminar o mês com as contas todas pagas. Isso de certa forma nos une e vai seguir assim mas já me encontro em paz, não como um guru zen mas feito uma capivara gorda deitada numa sombra em volta de uma lagoa suja qualquer. Deve bastar, precisa bastar, farei com que baste ou não farei coisa alguma.

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