um diário de crise


Viver é cansativo por si só, viver como um neurodivergente de pele marrom adiciona mais dez camadas a mais de cansaço. Hoje assisti ao filme The Idiot (1951), de Akira Kurosawa e ele me deixou pensativo. Tem dias em que viver parece somente uma questão de não morrer, e outros em que é a Olga deitada no meu lado enquanto assisto a um filme antigo que se torna minha âncora existencial. Sou nível 1,5 de suporte, fluoxetina 20mg e cinco cachorras com nomes de gente. Fracassei em me exterminar mais vezes do que em coisas que a sociedade considera importantes. Ainda assim, sempre que posso parar para me deitar e ler um livro ou ver um filme com minhas companhias caninas do lado fico feliz demais por ter fracassado em morrer. Myshkin não sobreviveu à bondade do próprio coração, mas eu sobrevivi ao meu, a duras penas, na base do acompanhamento psiquiátrico e dos pequenos teatros possíveis nesse palco de solidão que chamamos sociedade de consumo. Hoje em dia meu conselho é faça o mínimo necessário para não ser demitido, dê quantas cagadas remuneradas puder e segue, a vida precisa ser mais do que isso. O cérebro precisa de tempo para imaginar qual a cor da própria cauda se fosse uma sereia. São esses pequenos momentos que me fazem sentir que viver presta.

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